
A Rach morreu.
Simples assim. Três palavrinhas, rápidas, como um tapa na cara, digitadas pela melhor amiga dela. Fazem 13 dias e algumas horas, e até agora, quando eu me lembro daquela janelinha do MSN pulando na minha frente na madrugada, parece que é mentira.
Assim que li, gelei. Então minha primeira reação foi pensar que não tinha entendido.
"Não brinca comigo!"
E foi aí que a Bia me contou toda a história. A Rach tinha ficado doente e morrido. Como assim? Eu não tava acreditando. Mas é óbvio que a Bia não ia inventar uma coisa dessas. Só que esse tipo de notícia é tão surreal, que você não pensa direito. Quer dizer, eu não sabia nem que ela tava doente! Como ela tinha morrido? Não era possível.
Eu não tava entendo, a ficha não caía. Como isso? A Rach morre, e a Bia e a Tate no twitter, no MSN?
Eu tava sentada no meu colchão no chão na pousada que a gente sempre fica quando vai pra Florianópolis, com meu irmão dormindo na cama de casal do meu lado e minha mãe na sala.
Levantei. Como? Como? Que? Hã?
Acendi a luz da sala e minha mãe me olhou com uma cara de que ia tacar alguma coisa em mim.
"A Rach morreu"
Repeti pra minha mãe, e as lágrimas vieram, sem avisar. Parecia ser um coisa esperada. Quer dizer, minha amiga morreu, chorar não é inusitado. Mas foi sim, inesperado. Em um instante eu estava tonta e incrédula e no outro chorando. Quando reparei estava tremendo. Não tinha água na geladeira, só tequila que sobrou do ano novo. Optei por não beber nada.
Minha mãe me abraçou e perguntou quem era. Depois me mandou dormir. Como se fosse possível. Voltei pro PC e falei com a Bia. Depois saí do computador. Não conseguia lidar com isso.
Troquei de roupa e saí do apartamento. Fui andando até o parquinho da pousada e liguei pra Vany. Sabe, não sei porque fiz isso. A Vany não conhecia direito a Rach, e nem era amiga dela. Mas é minha melhor amiga, e eu precisava falar com alguém, e estava sem coragem pra ligar pras meninas. Desliguei o telefone, acendi um cigarro e liguei pro meu pai. Contei pra ele, e de repente estava chorando de novo. Queria ir embora dali! Parecia errado estar a 12h de todo mundo que estaria sofrendo com isso. Meu pai disse que não tinha como me buscar, mas eu não estava pedindo. Sabia que não era possível, só queria me desafazer e reaparecr em casa.
Depois que desliguei com meu pai, acalmei um pouco e mandei mensagem pra Bia. Eu tinha largado ela lá no MSN depois dessa bomba (que ela me tinha jogado), e se eu estava surtando imagina ela! Precisava tentar de alguma maneira confortá-la e fazê-la saber que, se precisasse, podia contar comigo.
A Rach a Bia a Tate e a Carol são pra mim aquele grupo de amigas de dar inveja. Não de um jeito ruim, sabe, querendo avacalhar com negócio, nada disso. De um jeito bom, torcendo do fundo do meu coração que elas soubessem quanta sorte tinham. Estou falando de verdade, não de um jeito tosco. Eu realmente adimiro muito elas e queia muito mesmo fazer parte de um grupo assim, tão chegado. Então pra mim é inimaginável a dor delas. Simplesmente impossível pra mim pensar quanto deve ser difícil. Então eu disse pra Bia que podia contar comigo. E é verdade. Sei que não sou a melhor pessoa, e sei que nunca vai ser suficiente e que nunca vai ser a mim que nehuma delas vai correr para uma vez que eu não era tão próxima e, principalmente, não compartilhava da mesma dor. Porque quando você tá sofrendo, você procura seus amigos divertidos e não ligados diretamete com seu sofrimento, mas, depois de um tempo, você precisa sofrer, pra tirar do seu sistema e continuar. E então você sofre com quem também está sofrendo, para se sentir compreendido. Felicidade aproxima as pessoas, mas dor também. Eu estava sem coragem de ligar pra alguma delas. Mas queria que contassem comigo.
Voltei pro quarto, liguei a TV e fui tentar dormir. Quando estava quase conseguindo, a Jade me ligou pra contar. Eu disse que já sabia e que era pra ela ir pra casa da Bia.
No dia seguinte acordei suada e tremendo, com minha mãe perguntando sobre minha amiga.
Eu não queria sair, mas como estava chovendo e ninguém ia pra praia, me convenceram a ir junto comer. Meu pai me ligou de novo, e eu chorei. O engraçado das lágrimas é que elas nunca vem quando você espera. Quando você acha que não vai mais chorar, você chora.
Esse dia eu ficava tentando me lembrar de tudo que eu conseguia. Das pequenas coisas, dos dias em que saí com ela. De como a gente virou amiga (eu conhecia ela desde baby e só virei amiga bem depois). Como ela andava na ponta do pé, como ela gostava de menino mais novo, como ela sorria largamente quando alguém encarava ela e ela já tinha acabado de falar, como ela sempre falava em inglês no meiodo português, comentava dos vídeos toscos, do carnaval, das noites no Villa, do teatro mágico, do mosaico, do dia em que ficamos no banco da Padaria e fomos comer doce a noite no La Villa sem ter pra onde ir, como ela tirava o esmalte pra ir visitar a vó, como ela odiava o próprio colo, como ela me lmebrava a KAte Voegele diva, como ela era fácil de gostar e de conversar. E todas essa coisas toscas e momentos que eu não vou escrever aqui. Entrei no twitter, tumblr e orkut dela. Li o histórico do Msn. Eu queria lembrar, queria lembrar de tudo, como se isso fosse me dar a ilusão de que eu ainda teria momentos com ela. Porque de repente eles pareciam poucos, eu não sabia quase nada dela! Eu nem sequer tenho fotos com ela. Parecia errado... como seu eu não tivesse apreciado o tempo com ela como deveria. Queria falar sobre isso, conversar, por algum motivo irritante.
Eu poderia extender todo o meu drama de como eu lidei com isso, contando do velório que eu não fui, da missa, da visita à casa da Bia, da minha falta de comunicação com a Tate, do meu dia #fail em que eu chorei na frente da Carol (ela quem precisava de mim, koé), da reação do Lu, e de como eu queria ser uma amiga melhor.
Mas sabe, a morte é uma coisa curiosa.
A Rach não foi a primeira pessoa que morreu de quem eu era próxima. Meu avô e meu tio morreram, de doença também. Mas eu não convivia com eles, e eles passaram anos doentes, então não senti tanto assim. Senti pelos meus primos e pelo meu pai. Mas eu também não convivo tanto com meus primos, apesar de amar eles, e então ficava fácil de esquecer. Eu deveria ter apoiado mais meu pai. Me sinto mal por não tê-lo feito.
A Rach não foi nem a primeira pessoa novo que morreu. Teve a irmã do Diego, a Paola, que era da minha escola e morreu de leucemia, e a Amanda que fez nado comigo que morreu de púrpura.
Mas nesses 2 casos, além de eu não conviver com elas, teve campanha de doação pela cidade, e demorou. Quando elas morreram, foi uma coisa, bem, esperada.
A Rach morreu em menos de 10 dias! Foi repentino demais, foi... surreal. Eu disse que não deu tempo nem de eu saber que ela estava doente. Fim de ano todo mundo viaja.
Fazia tempo que eu não saía com as meninas e a Rach nem era a que eu era mais próxima, mas foi a primeira vez que eu realmente tive que lidar com a morte. E me surprendi, notando que eu não sou tão fria assim quanto pensava. Só imbecil.
Pensar nas minhas amigas, pensar que ela nunca vai entrar na faculdade, pensar que nunca mais vamos beber, sair, conversar, pensar que só restam as lembranças e pensar em quanto eu poderia ter sido mais amiga dela.
O ruim de lidar com a morte é que, você não pode xingar o mundo e dizer "você não entende!"
Meu pai perdeu o pai e o irmão, e provavlment muitos amigos. Minha mãe perdeu o irmão quando ele ainda era adolescente!
Todo mundo já perdeu um ente querido. E quando me tio e meu avô morreram, eu não fui uma boa pessoa nem com meu pai nem com meus primos. Ajuda zero. Por mais que eu queira, eu sou um desastre. Sou avoada, egocêntrica, e só percebo as coisas quando são comigo.
As vezes eu queria acreditar nas coisas. Me ajudaria tanto a lidar com isso, e a confortar as pessoas. Saber o que dizer. Mas eu não acredito. Não acredito que a Rach esteja no céu, ou em um lugar melhor. Ela simplesmente, se foi. O coração parou de bater e agora ela não existe mais.
E achoq que é por isso que dói tanto. Acabou pra sempre. Nunca mais vamos ereencontrá-la.
Uma vez, quando uma amiga da Ju, minha prima (filha do meu tio que morreu, e quem eu não confortei e até hoje não fui conhecer o filho - eu sou ridícula), morreu de acidente, ela me disse que agora ela era um anjinho no céu, e também fez um post sobre isso no blog dela.
E às vezes tudo o que eu queria, era poder dizer isso: que a Rach é um anjo no céu, olhando a gente lá de cima e esperando que todos aguentem firme e mandando forças, principalmente pros pais dela e pras meninas.
Sei que tudo na vida se supera, e eu vou superar, e espero que minhas girls superem também, porém guardando sempre na memória e nunca esquecendo dos momentos, pois é assim, o único jeito em que eu acredito que a Rach possa permanecer viva: na memória e no coração de todos aqueles que ela cativou.
Raquel, nosso anjo.
saudades <3